A mídia e o MST: heróis e vilões na trama do discurso jornalístico

Muitos rejeitam o MST sem conhecer suas lutas autênticas. Em seu descredenciamento, encontramos desordens, crimes, denúncias de falsas acusações que se somam a imagens e fotos provocadoras, manchetes e editoriais tendenciosos
Muitos rejeitam o MST sem conhecer suas lutas autênticas. Em seu descredenciamento, encontramos desordens, crimes, denúncias de falsas acusações que se somam a imagens e fotos provocadoras, manchetes e editoriais tendenciosos

Este artigo tomou como referência o debate presente na tese “A Mídia e o MST: heróis e vilões na trama do discurso jornalístico”, que busca demonstrar que a grande mídia, em seu discurso, tenta convencer o receptor da neutralidade e da imparcialidade da sua notícia, quando, na verdade, ele está afinado com o interesse de grupos empresariais, cada vez mais fortes e concentrados, que impõem suas pautas à sociedade. E é nesse cenário que a mídia se apresenta como um importante instrumento de manutenção do consenso em torno de interesses políticos e econômicos que, na realidade, configuram o processo de construção das notícias, cujas mensagens transmitidas formam a opinião pública sobre os acontecimentos. Para entender o papel da mídia atualmente, é preciso perceber a relação da imprensa com o mundo capitalista. Segundo o professor Dênis Moraes, da Universidade Federal Fluminense, “a mídia tornou-se fonte alimentadora das engrenagens indispensáveis à hegemonia do capital, uma espécie de mais-valia decisória que se qualifica como recurso básico de gestão e produção”.

Contrário à concepção capitalista de mundo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que atua repensando o papel da propriedade, da produção e do próprio homem em meio à essência do capitalismo no campo, vai conviver com a ação condenatória dos grandes monopólios e oligopólios midiáticos brasileiros, que buscam a sua criminalização a qualquer custo. A luta real do movimento é desconhecida. Há uma relação contraditória entre o MST e a mídia, pois as pessoas conhecem o movimento como aquele que invade a terra alheia e ergue acampamentos, porque os meios de comunicação trabalham para estabelecer essa visão desfavorável da sociedade sobre o MST, independente dos princípios de liberdade e isenção defendidos em público pelos “donos da mídia”. Nossa imprensa finge desconhecer as ações voltadas para a superação da desigualdade na distribuição de terras e a luta pela soberania alimentar. A compreensão sobre o papel político da mídia, no mundo contemporâneo, mostra-nos a parcialidade da sua cobertura.

Os meios de comunicação desempenham papel fundamental na construção de sentido social. Eles direcionam e apontam os caminhos a seguir, daí constituírem-se em campo de disputa social e política. A informação jornalística é uma experiência que já vem pré-formada pelos mediadores e pelo sistema no qual estão inseridos. Com o advento da televisão, a mídia transformou-se, definitivamente, em “aparelho privado de hegemonia”, ainda mais eficaz na articulação hegemônica e contra-hegemônica, na sua capacidade de construir os limites da realidade e na reprodução do discurso ideológico necessário à manutenção da governança. Numa sociedade em que as indústrias de mídia ganham proporções de monopólios e oligopólios, determinadas por incorporação do capital financeiro, gestão empresarial, poder de acionistas, integração das indústrias de telecomunicações, a própria ideologia se responsabiliza pelo avanço na condução das configurações assumidas pelo capital em seu histórico processo de desenvolvimento.

Na agenda atual do campo da comunicação social, predominam temas como convergência tecnológica, TV e rádio digital, entre outros, além das questões de propriedade cruzada e concentração de diversos segmentos de mídia em escassos setores ou grupos. Essas questões ainda permeiam a estrutura do sistema de comunicação brasileiro, desafiando a Constituição Federal e as legislações do setor e apresentando-se como um grande empecilho na luta da sociedade organizada pela democratização da comunicação e da informação no Brasil. Sem meios de comunicação democráticos e plurais, tornam-se falaciosos os discursos da liberdade de expressão e da democracia neste país. Existem dados mais do que suficientes para afirmar que a prática do oligopólio nos meios de comunicação, em terras brasileiras, configura-se em uma realidade das mais preocupantes. Hoje, a luta pelo controle e pela democratização da mídia assume contornos de uma verdadeira “guerra de posições”.

O que falta à imprensa? Com a escassez de informação de qualidade e de imparcialidade nos noticiários, como evitar que os leitores/telespectadores das notícias se concentrem em considerações que se misturam com posição editorial para construírem suas opiniões, uma vez que não há diversidade de informações que possibilite a esses leitores/telespectadores formarem senso crítico sobre um determinado assunto? Apesar do lucro da mídia, as redações estão a cada dia mais reduzidas, enquanto aumenta na mesma proporção o controle editorial das famílias proprietárias dos meios de comunicação. Diante da comprovação de diversas pesquisas, observamos que se tornou lugar-comum pelos meios de comunicação, que funcionam como grandes monopólios e defensores do poder econômico, denunciar como atentados à liberdade de expressão cada vez que seus interesses empresariais são ameaçados. Na estrutura atual, são privilegiados os lucros em detrimento do serviço, instituindo uma forte padronização na produção dos conteúdos de informação.

Diversos episódios recentes relativos aos escândalos que conjugam política, poder e informação, em todo o mundo, reforçam a necessidade de um marco regulatório da mídia em nosso país. A liberdade de expressão encontra-se no centro do debate da sociedade e dos movimentos sociais e deveria ser aproveitada. O sistema atual restringe a liberdade de expressão à não interferência do Estado na livre circulação da informação. “Não há como fugir da evidência de que uma lei geral de comunicação eletrônica de massa é inadiável e que a construção de um marco regulatório deve contemplar a convergência tecnológica dentro dos princípios definidos na Constituição”, de acordo com professor Venício Lima, autor de diversos livros sobre o assunto. Um aspecto relevante é que se pensem normas para evitar a concentração da propriedade dos meios de comunicação, única alternativa possível para a garantia da pluralidade dos atores consagrados constitucionalmente.

A forma como os textos jornalísticos são construídos cria uma série de pressupostos assimilados pelo senso comum. Muitos rejeitam o MST sem conhecer suas lutas autênticas. Em seu descredenciamento, encontramos desordens, crimes, denúncias de falsas acusações que se somam a imagens e fotos provocadoras, manchetes e editoriais tendenciosos. No Brasil, os jornais, as revistas, as emissoras de rádio e de televisão pertencem a famílias ou oligarquias que defendem exclusivamente seus interesses, subordinados, por sua vez, aos interesses do capital transnacional, que criam obstáculos à circulação equilibrada da informação. Os meios de comunicação, na forma em que existem, dificilmente darão espaço para a expressão e a constituição de interesses que ameacem as estruturas básicas do capitalismo. Em geral, os meios de comunicação apresentam críticas e informam de maneira parcial acerca dos assuntos que fogem aos seus interesses, principalmente em se tratando do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o que dificulta ao leitor formar senso crítico sobre as suas ações.

Atualmente, a grande mídia induz ao seu receptor, ao examinar conjunturalmente a sociedade, não somente a seleção dos acontecimentos e atores a serem analisados, como atribui a esses acontecimentos um sentido identificado com o interesse das classes dominantes e como um fato visto e lido por interesses específicos. Assim, o discurso midiático naturaliza um significado como único a ser dito, o de que as ações do MST são atos terroristas, o que implica sempre apresentar o movimento no papel de vilão, nunca de herói.

 

Sonia Maria Ferreira – Brasil de Fato

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