Parque do Zizo

Raphael Vasconcelos Balboni*
Raphael Vasconcelos Balboni*

O Parque do Zizo foi fundado em1998 pela família Fogaça Balboni para homenagear Luiz Fogaça Balboni, carinhosamente conhecido por Zizo.

Estudante da Poli na USP, engajou-se na luta armada contra a ditadura militar nos idos de 1960. Nascido e criado na cidade de Itapetininga, filho de Luiz Balboni e de D. Quinha, como era conhecida a Francisca Aurea Fogaça Balboni, desde muito cedo demostrava um caráter solidário e caridoso. Fazendo-se altruísta, impressionava a muitos pela audácia e perspicácia de sua juventude.

Contam que até o calçado chegou a doar para aquele que via precisando, tirando o seu e voltando descalço para casa. Misturava-se com aqueles que preconceituosamente eram chamados “de outra laia”, pessoas ditas “de cor”. Era músico, adorava tocar violão e dançar. Via-se faceiro e contestador ao mesmo tempo; idealista, foi um dos primeiros a trazer livros para a província dos pensadores políticos e também subversivos da época, os comunistas de então.

Zizo foi morto e torturado pelos militares em 29 de setembro de 1969, baleado por fuzil na capital paulista, quando se preparava para mais uma expropriação de um banco pela ALN, Ação Libertadora Nacional, na Alameda Santos, para financiar a luta armada.

Jovem de 24 anos, enviado num caixão lacrado pelo Estado à sua família que, totalmente desprovida de conhecimento, teve que aceitar o veredito sobre o ser humano ali entregue, tal qual um bandido, assaltante de banco que, “armado, associou-se a um bando de marginais valendo-se de violência e brutalidade contra o Estado e a ordem social”.

Trinta anos se passaram de luto, dor e lágrimas; afinal, como poderia aquele menino meigo e afável ser um déspota malvado que avança diante do povo por malícia e mesquinharia?

Muitas questões ficaram rondando como que sem razão, flutuando no coração de sua mãe que perdera o rumo por sua ausência, até que um dia alegremente recebeu uma notícia através de um de seus oito filhos: o Estado reconheceu sua culpa na morte de Zizo. Ele poderia ter sido socorrido e não o foi; a verdade sobre sua história ficou evidente. Zizo estava do lado de seu povo, lutando veemente pela liberdade diante da truculência e do totalitarismo ávido de poder, que roubou a cena naquele tempo sórdido.

Graças a resiliência de seus familiares, todo o dinheiro recebido como indenização foi aplicado na compra de 400 hectares de Mata Atlântica virgem, no alto da serra de Paranapiacaba, o maior contínuo remanescente do país, que representa 2% dos 5% que sobraram ao longo de todo o litoral brasileiro.

Hoje o Parque do Zizo é administrado pela APAZ, Associação Parque do Zizo, uma ONG criada para gerir as questões legais dessa empreitada que, nesse ano de 2013, foi reconhecida definitivamente com RPPN, Reserva Particular do Patrimônio Natural, pelo governo do Estado de São Paulo.

É um primeiro passo para se constituir uma das maiores reservas particulares do país, abrigando centenas de milhares de espécies endêmicas deste bioma único, possivelmente o mais rico em biodiversidade do mundo.

O PAZ é um paraíso inteiro, intangível, que preserva seres florestais em perigo de extinção, como a ave Jacutinga, o macaco Muriqui, o palmito Jussara, todos exemplares insignes da fauna e flora nacional.

Atualmente o turismo de contemplação atrai ornitólogos, botânicos, cientistas, pedagogos, terapêutas e diversos profissionais e curiosos do mundo todo que buscam uma paisagem realmente primária e original como a existente na selva do PAZ.

Há mais de 15 anos este espaço mágico de natureza virgem é inspiração e motivo de orgulho não apenas para a família, mas para os cidadãos da pequena São Miguel Arcanjo, que, além deste, possui outros e também o maior parque de Mata Atlântica do país, o Parque Estadual Carlos Botelho, que é ainda pouco visitado se considerarmos sua enorme importância.

Zizo é, foi e será um exemplo de luta pela fraternidade, igualdade e liberdade. Seu legado seguirá por gerações na forma mais completa e pura que existe: um santuário da natureza.

Apenas a duas horas da capital paulista, esse reduto da vida silvestre é uma pequena dádiva não conhecida pelo grande público. Região farta de boas terras e águas, a capital da uva Itália produz vinhos jovens e uma grande diversidade na agricultura de pequena escala.

Conhecer o PAZ é conhecer a história de nosso país; adentrar suas matas é aproximar-se de nossas raízes; viver essa visita é sentir-se parte de toda essa Vida; e divulgar a sua existência é ampliar seu potencial como palco político, cultural, ambiental e patrimônio espiritual do povo brasileiro.

*Raphael Vasconcelos Balboni é Gestor e Educador Ambiental, Consultor e Produtor da Agricultura Biodinâmica – raphael@parquedozizo.com.br

Fonte: Mercado Ético

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