O exótico professor da USP que tomou um esculacho por elogiar o Golpe

uspMaravilhoso o esculacho dirigido por alunos ao professor Carlos Gualazi, da Faculdade de Direito da USP.
É o melhor fecho para as lembranças e os debates em torno dos 50 anos do Golpe de 64. Felizmente, a cena foi gravada num vídeo que se tornou viral na internet.

 

Gualazi pediu para ser esculachado ao fazer, ou tentar fazer, o elogio da “Revolução”. Estava vestido a rigor para a ocasião, com uma vistosa gravata borboleta.

 

Ele já tinha avisado os alunos. E estes se prepararam adequadamente. Ele começa a ser apupado pelos presentes à sala de aula. Logo em seguida, estudantes invadem a sala, alguns encapuzados, e todos cantando um clássico da resistência. “Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião.”

 

A reação de Gualazi foi cômica. Ele ainda buscou, num triunfo da esperança, colocar ordem na classe. Tirou o capuz de uma aluna, ficou num empurra-empurra com um aluno e opôs sua voz francamente minoritária à da turma em ampla maioria.

 

Gualazi, 67 anos, é uma figura singular. Ele tem um verbete na Wikipedia escrito evidentemente por ele mesmo. Nele está registrada, com visível orgulho, sua segunda carreira: a de músico profissional. Você vê ali até a foto de um cd do professor.

 

Mas um aviso na Wikipedia alerta o leitor de que, por “consenso”, foi pedida a “eliminação” do verbete.

 

Não sei exatamente o que é este consenso, mas coisa boa para Gualazi não é.

 

O esculacho deu duvidosa notoriedade a ele. A fama poderia vir antes, se alguém prestasse atenção a um livro de história que ele escreveu em parceria com Jânio Quadros.

 

Nele, Jânio explica com clareza torrencial o que o levou à renúncia de 1961. Ainda hoje, historiadores e jornalistas tentam decifrar um gesto que, num livro coescrito por Gualazi, é objeto de justificativa minuciosa.

 

A história, nas palavras do próprio Jânio:
“Quando assumi a Presidência, eu não sabia da verdadeira situação político-econômica do país. A minha renúncia era para ter sido uma articulação: nunca imaginei que ela seria de fato aceita e executada. Renunciei à minha candidatura à Presidência, em 1960. A renúncia não foi aceita. Voltei com mais fôlego e força. Meu ato de 25 de agosto de 1961 foi uma estratégia política que não deu certo, uma tentativa de governabilidade.
 
Também foi o maior fracasso político da História republicana do país, o maior erro que cometi (…). Tudo foi muito bem planejado e organizado. Eu mandei João Goulart (vice-presidente) em missão oficial à China, no lugar mais longe possível. Assim, ele não estaria no Brasil para assumir ou fazer articulações políticas.
 
Escrevi a carta da renúncia no dia 19 de agosto e entreguei ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, no dia 22. Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a Presidência. Pensei que os militares, os governadores e, principalmente, o povo nunca aceitariam a minha renúncia e exigiriam que eu ficasse no poder. Jango era, na época, semelhante a Lula: completamente inaceitável para a elite. Achei que era impossível que ele assumisse, porque todos iriam implorar para que eu ficasse (…). Renunciei no Dia do Soldado, porque quis sensibilizar os militares e conseguir o apoio deles.
 
Era para ter criado um certo clima político. Imaginei que, em primeiro lugar, o povo iria às ruas, seguido pelos militares. Os dois me chamariam de volta. Fiquei com a faixa presidencial até o dia 26. Achei que voltaria de Santos para Brasília na glória. Ao renunciar, pedi um voto de confiança à minha permanência no poder. Isso é feito freqüentemente pelos primeiros-ministros na Inglaterra. Fui reprovado. O país pagou um preço muito alto. Deu tudo errado”.
Era para ser um furo histórico e nacional, mas ninguém leu. Ter participado ativamente da confissão de Jânio não tirou Gualazi da obscuridade.

 

Ele parecia condenado à sombra, até que decidiu fazer o elogio do golpe.

 

O resto é um vídeo que vai ficar para a história do Brasil nos 50 anos do golpe.


Paulo Nogueira
No DCM

Fonte: contextolivre

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