Memória dos pioneiros em evidência

Fonte: arpdf.df.gov.br | Foto: Divulgação
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Realizado pela primeira vez nas cidades de Cruzeiro e Samambaia, a ação Chá da Memória, do ArPDF, valoriza os primeiros moradores de Brasília

Aos 81 anos, dona Ivoone Araújo Eduardo lembra muito bem do primeiro dia em que pisou em Brasília. Foi em março de 1959, no Cruzeiro, e ela ainda esbanjava o frescor de seus 27 anos. “Foi uma surpresa muito triste porque aqui só tinha mato, poeira e cobra, que entravam debaixo da porta”, recorda. “E naquela época o Cruzeiro nem tinha o nome que tem hoje, era ‘Gavião’, por conta da quantidade deles por aqui”, detalha.

Hoje, 54 anos depois, na condição de pioneira mais velha da cidade, ela acha que muita coisa precisa ser feita para melhorar o local que escolheu para viver o resto da vida, mas não esconde o amor incondicional pelo lugar. “O Cruzeiro é a minha terra”, diz orgulhosa.

Com cinco anos a mais, 86 anos, dona Laudélia Severino de Oliveira não se esquece do tempo em que os chafarizes de Samambaia funcionavam a todo vapor com suas seis torneiras, abastecendo os moradores da cidade. “Meu filho, carreguei muita água na cabeça, quando cheguei aqui só tinha mato cobrindo a poeira”, lembra.

Sorridentes, simpáticas e dotadas de memórias prodigiosas, as duas personagens, situadas em dois extremos do Distrito Federal, têm em comum o fato de serem pioneiras em Brasília. Dona Ivoone, uma das primeiras moradoras do Cruzeiro, já dona Laudélia, pertencente às primeiras turmas contempladas com o loteamento em Samambaia. Ambas, figuras de destaques dosChás da Memória realizado nas duas cidades pela primeira vez pelo Arquivo Público do Distrito Federal.

A ação, uma das mais relevantes do órgão, tem como destaque valorizar a memória e história de quem viveu e ajudou a construir os primórdios da nova capital por meio do contato direto deles com o acervo da instituição. Os dois eventos foram prestigiados em peso pelos primeiros moradores das duas cidades, que se sentiram valorizados pela iniciativa que tem como foco principal o resgate.

“As pessoas tem o direito e precisam saber que há fotos contando a história delas, do lugar de onde elas são. Essa troca de experiência é importante para nós do arquivo”, destacou o superintendente em exercício do ArPDF, Guilherme França. “Nosso compromisso é que essa iniciativa vá além do PlanoPiloto, valorizando a história e a memória de todas as trinta RAs do Distrito Federal, até para reforçar essa história local”, reforçou.

Para Cristiane Portela, Coordenadora de Pesquisa do ArPDF, área responsável diretamente pela ação, otrabalho é gratificante. “É emocionante vê os pioneiros se identificando nas fotos, se lembrando da história que ajudam a construir”, disse.

Figura de destaque na cena cultura de Samambaia, Marcus Aurélio Dantes, nome de certidão do DJ, Markão Aborígine, eventos como o Chá da Memória são importantes porque não apenas resgatam a autoestima dos pioneiros, mas também valoriza o sentimento de identidade local. “A cidade cresceu bastante, o senso de comunidade se perdeu dentro da metrópole”, observou o artista, morador de Samambaia desde os 4 anos e que registrou suas lembranças do tempo de criança no rap, Chafariz, título que faz referência ao símbolo mais emblemático da cidade que não existe mais. “Das ruas da terra, meu lar, minha casa/Duas décadas, a construção não pára/A ti dedico poesia e palavras/Vejo luzes acesas é Samambaia”, canta.

“O pontapé inicial já foi dado com as atividades em torno dos chás da memória, agora é só continuar com os trabalhos de preservação da história local de cada cidade com a implantação das ‘casas de memória’”,defendeu o historiador Rafael Fernandes, Diretor de Cultura da administração Regional do Cruzeiro, referindo-se a outra ação do Arquivo Público em fase de planejamento.

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