Greve dos bancários para 9,6 mil agências; passeata denuncia abuso de metas

greve_bancários_marcelo_camargo_abr_0Trabalhadores reclamam de serem obrigados a vender cesta de serviços que cliente “não sabe por que tem nem se precisa”

Viviane Claudino, – da Rede Brasil Atual

 

O sexto dia de greve dos bancários, nessa terça-feira (24), paralisou 9.665 agências e centros administrativos de bancos públicos e privados do país. Em São Paulo, os trabalhadores saíram à noite em passeata da avenida Paulista até a Praça Roosevelt, cobrando mais contratações e melhores condições de trabalho, o fim das metas abusivas e do assédio moral.

Abertura de contas, vendas de produtos, capitalização, seguros, quantidades de negócios e planos de previdência estão entre as diversas cobranças feitas diariamente aos funcionários, para o cumprimento das metas estipuladas pelas instituições financeiras.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Juvandia Moreira afirma que a reivindicação por mais contratações é uma das prioridades na campanha salarial. “Está faltando trabalhadores nas agências e a consequência disso é o adoecimento físico e mental da categoria, pressionada a vender cada vez mais produtos e a cumprir metas cada vez maiores”.

Segundo ela, os bancos privados estão reduzindo o número de funcionários, o Banco do Brasil não está chamando aprovados em concursos e a Caixa Federal contrata, mas com a expansão do número de agências direciona os novos trabalhadores para os novos locais de trabalho e as unidades com déficit de pessoal continuam amargando o problema.

Um bancário que trabalha na Caixa há sete anos, que pede para não ser identificado, confirma a demanda: “Se precisamos de dez funcionários, é preciso que eles contratem dez e mandem para a agência, porque as novas contratações, dessa maneira, não estão resolvendo o nosso problema”, afirma. “Estamos sempre em dívida. Quando estamos próximos a cumprir a meta do mês, precisamos parar porque surge alguma meta diária que é mais importante para aquele momento. Assim, acumulamos metas diária, semanal e mensal. É impossível”, desabafa.

A Pesquisa de Emprego Bancário (PEB) divulgada hoje (24) pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), em parceria com o Dieese, com base nos dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, revela que os bancos privados fecharam 6.987 postos de trabalho entre janeiro e agosto de 2013.

“A meta muda a cada mês. Se temos orçado que devemos bater R$ 200 mil em recuperação de crédito, sabemos que o gerente regional vai querer que seja feito 150%, às vezes até 200%, em cima desse valor”, completa uma supervisora que trabalha há 12 anos no Bradesco.

Outro que também pede anonimato, um técnico bancário que está há nove meses na Caixa, conta por que está presente na passeata: “Você continua trabalhando para chegar na meta, economiza no horário de almoço, fica até mais tarde. Não queremos que não existam metas, mas elas precisam ser reais, para que a gente consiga trabalhar, porque hoje é impossível alcançá-las”. Segundo ele, dificilmente o cliente que vai abrir uma conta sai da agência somente com isso, mas também com cartão de crédito, liberação para empréstimo, limite para cheque especial e uma cesta de serviços que muitas vezes “nem sabe que tem nem se precisa”.

“O cliente muitas vezes compra porque o bancário implora, isso tem de acabar. Vivemos um grande problema com essa pressão institucional”, afirma a presidenta do sindicato.

“Vai da sorte”, afirma uma bancária do Banco do Brasil, que, com 12 anos de casa e dois afastamentos por problemas de saúde relacionados ao cumprimento de metas, atualmente trabalha em um departamento e não sofre com a pressão. “Mas no call center, já cheguei a fazer 200 ligações por dia.”

Entre as reivindicações econômicas, os bancários pedem 5% aumento real, piso salarial de R$ 2.860,21 e três salários mais R$ 5.553,15 de PLR. A proposta dos bancos é de 6,1%.

 

Apoio

A passeata dos bancários em São Paulo contou com a participação dos representantes da Associação dos Vigilantes do Estado de São Paulo, que entraram em greve nessa manhã (24) para reivindicar o cumprimento à Lei 12.740 para o pagamento de 30% do valor adicional de periculosidade, e dos trabalhadores representados pela Federação Única dos Petroleiros (FUP), que fará paralisação de 24 horas no dia 3 pela campanha salarial, contra o leilão do Campo de Libra e pelo combate à terceirização.

Foto: Marcelo Camargo/ABr
Fonte: Brasil de Fato.

Leave a Response