Oito mil mulheres ocupam Avenida Paulista por igualdade e fim da violência

Igualdade e fim da violência foram principais pautas da marcha de mulheres (Foto: Dino Santos)

CUT e movimentos sociais foram às ruas nesse 8 de março para defender também a reforma política

Escrito por: Luiz Carvalho e Vanessa Ramos
As águas de março resolveram dar uma trégua nesse sábado (8), Dia Internacional das Mulheres, e o sol recebeu as mais de oito mil manifestantes, que partiram da Avenida Paulista e seguiram em marcha até a Praça Roosevelt, no centro da cidade de São Paulo.

Durante o trajeto, algumas vestiam preto e carregavam cartazes com a foto e o nome de mulheres que foram assassinadas em 2013. Outras, transformaram panelas e latas em instrumento de luta e protesto.

Algumas, ao invés de vestir, resolveram tirar a blusa e escrever frases no corpo para cobrar o mesmo direito que os homens têm em dias de calor, sem que isso represente um convite à violência.

Crianças, acompanhadas principalmente das mães, também coloriram a caminhada. Em alguns casos, antes mesmo de nascer, como é o caso de Caetano, filho de Larissa Baptista, que fez todo o percurso com a frase “meu corpo, minha escolha”, escrita na barriga de oito meses e meio.

“Ser mãe é uma escolha, devemos garantir o direito da mulher tanto de dizer sim, quanto de dizer não”, afirmou. E isso inclui a forma como o filho virá ao mundo. “Vou dar à luz numa casa de parto na zona sul após uma grande luta, porque a classe médica e, portanto, os planos de saúde, não apoiam os partos normais no Brasil”, destacou. De acordo com um levantamento da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), de 2011, o Brasil é campeão de cesáreas, com o equivalente a 44% dos nascimentos.

Papel da marcha e do Estado – Para a diretora Executiva da CUT, Rosana de Deus, “a marcha serve para apresentarmos as nossas reivindicações à sociedade. Essa forma de organização é que faz com que o 8 de março seja uma Dia de Luta. Nele, nós mulheres vamos às ruas para fazer o debate com a população”, ressaltou.

Secretária Nacional da CUT, Rosane Silva, destacou o papel que o Estado teve na última década para a autonomia das mulheres.

“O Prouni (Programa Universidade para Todos) e o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico) têm em sua maioria bolsistas mulheres e isso demonstra como as políticas públicas podem ajudar na luta pela igualdade, apesar de termos muito ainda a avançar. Porque hoje já somos maioria no mercado de trabalho, mas ainda recebemos menos para realizar as mesmas funções”.

Rosane também apontou que as mulheres cutistas defendem a Copa do Mundo no país, mas alertou para a necessidade de o evento não deixar um rastro negativo. “Não somos contra a Copa, mas não queremos que milhões venham ao Brasil para utilizar nosso corpo, seja por meio da prostituição ou da utilização do trabalho precarizado e temporário. Cobramos que nossa vida e corpos sejam respeitados”, explicou.

Fim da violência e reforma política  Em cima do caminhão de som, as dirigentes da CUT/SP lembraram a caravana “Por Autonomia e Igualdade: Luta contra a Violência à Mulher”, organizada pela Central, que percorreu o estado no final de 2013 e entregou um relatório com denúncias à Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM/PR).

Segundo a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT/SP, Sonia Auxiliadora, é preciso maior investimento em políticas públicas de trabalho e renda. “Os governos em todas as esferas devem criar programas que permitam que as mulheres tenham autonomia e consigam romper com o ciclo da violência doméstica que se manifesta de diferentes formas”.

Para Rosane, Copa não pode deixar legado de exploração
do corço e da força de trabalho das mulheres (Foto: Dino Santos)

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a violência doméstica é a que mais atinge as mulheres de 15 a 44 anos no mundo.

Sônia critica a ausência do Estado Paulista na gestão do PSDB, que sequer criou uma secretaria específica para tratar de políticas para as mulheres.

Para a secretária de Formação da CUT/SP, Telma Victor, o enfrentamento à violência doméstica passa por um maior investimento nas escolas e na valorização dos docentes, áreas em que o governo tucano também deixa a desejar. “A transformação radical da sociedade está na educação que conta com o apoio da família, mas também na visão de que professores e professoras são prioridade”.

Outra bandeira defendida pelas mulheres foi o Plebiscito Popular pela defesa de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, construído em conjunto com outros movimentos e centrais sindicais. Essa proposta, entre outras questões, aponta para uma democracia com maior presença das mulheres na política, que hoje ocupam apenas 9% dos mandatos na Câmara dos Deputados e 12% no Senado.

“Não temos dúvida que uma mudança estrutural se dará com maior participação das trabalhadoras no parlamento e em outros espaços de poder”, afirmou Sonia Auxiliadora.

30 anos da CUT/SP – A secretária estadual da Mulher Trabalhadora lembrou que em 2014 a CUT São Paulo completa 30 anos de lutas e conquistas e ressaltou a capacidade de mobilização das trabalhadoras dentro da Central. Um passo importante foi dado no último congresso nacional da entidade, que definiu a paridade de gênero para as próximas gestões, inclusive para as estaduais.

A ex-coordenadora da 1ª Comissão Estadual sobre a Mulher Trabalhadora da CUT/SP, Maria Mendes, também presente na marcha, falou das dificuldades encontradas pelas mulheres dentro do movimento sindical para ocuparem cargos de direção. “Nossa primeira luta foi pelo direito à creche porque não tínhamos sequer com quem deixar os nossos filhos. Depois, a disputa interna para mostrar que estávamos preparadas. E esses desafios, apesar dos avanços, continuam até hoje”, avalia.

As mulheres e a discriminação – Para a militante do Fórum das Mulheres Negras do Estado de São Paulo, Lúcia Makena, os recentes casos de discriminação racial no Brasil contra o jogador Arouca e o árbitro Márcio Chagas são apenas a ponta do problema.

Ipea, entre 2001 e 2011, 50 mil mulheres foram assassinadas no Brasil
(Foto: Dino Santos)

“O pior é o racismo institucional, que impede o povo negro de avançar e ocupar os melhores cargos, que sucateia as escolas públicas e não deixa que estejamos melhor preparados para os melhores espaços, que coloca a polícia para matar a juventude negra e enxerga na mulher negra da periferia um mero objeto”, criticou.

Segundo a cadeirante e diretora da Afubesp (Associação dos Funcionários do Grupo Santander-Banespa), Marly dos Santos, embora existam legislações específicas para as pessoas com deficiência, as mulheres ainda se sentem invisibilizadas. “De cada mil mulheres com deficiência, 70% das que vivem na cidade de São Paulo sofrem violência doméstica”, relata, citando levantamento do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência.

De acordo com Marly, são comuns os relatos sobre estupro das mulheres cadeirantes. “Muitas têm vergonha de contar o que vivem.”

50 anos do Golpe – As fotos de mulheres assassinadas pela ditadura militar no Brasil (1964-1985) foram carregadas pelas militantes para denunciar a tortura e a violência durante o período. .

A militante Amélia Teles, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, também presa durante o regime, relatou que as lutas ocorreram das mais diferentes formas, na clandestinidade, empunhando armas, e também organizando a classe trabalhadora.

Segundo Amelinha, como é conhecida, a luta feminista vai para além dos movimentos sociais e dos sindicatos. “Tivemos que recuperar durante a ditadura e a pós-ditadura a iniciativa e a autonomia das mulheres e isso não pode ser menosprezado em nossa história. Isso ajudou a garantir a recuperação de uma democracia, ainda que incipiente e cheia de mazelas”, conclui.

Fonte: CUT

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